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Cibersegurança

Zero Trust: Por que sua empresa ainda confia demais

Zero Trust: Por que sua empresa ainda confia demais

A Colonial Pipeline, maior oleoduto dos Estados Unidos, paralisada. 5.4 milhões de dólares pagos em Bitcoin para criminosos. Tudo porque alguém confiou em uma senha VPN comprometida. Maio de 2021 foi um divisor de águas: o modelo de segurança baseado em "confiar e verificar" morreu oficialmente.

Em meus 34 anos à frente da NESS, vi a evolução de firewalls de perímetro para arquiteturas distribuídas. Hoje, como CISO da IONIC Health, lido diariamente com a realidade de que 70% da força de trabalho opera remotamente, acessando sistemas críticos de saúde de cafés, aeroportos e home offices. O perímetro tradicional não existe mais.

O Custo da Confiança Implícita

Segundo o relatório Verizon DBIR 2024, 74% das violações envolvem o elemento humano: credenciais roubadas, phishing ou erro humano. O modelo tradicional de segurança assume que, uma vez dentro da rede corporativa, você é confiável. É como dar a chave da casa para qualquer um que passe pela portaria do prédio.

O impacto financeiro é brutal. O custo médio de uma violação de dados em 2024 atingiu US$ 4.88 milhões globalmente (IBM Cost of a Data Breach Report). Para empresas de saúde, esse número sobe para US$ 10.93 milhões. Não é mais uma questão de "se" você será atacado, mas "quando" e "quanto vai custar".

A mudança para cloud e trabalho híbrido acelerou exponencialmente essa vulnerabilidade. Seus dados não estão mais em um data center fortificado. Estão em AWS, Azure, Google Cloud, SaaS applications e nos laptops dos colaboradores. Cada endpoint é uma porta de entrada potencial.

Zero Trust: Desconfiança Arquitetural

Zero Trust não é um produto que você compra. É uma filosofia de segurança que inverte o paradigma: nunca confie, sempre verifique. Cada acesso, cada transação, cada movimento de dados é tratado como potencialmente hostil até prova em contrário.

Os pilares fundamentais são:

1. Verificação Contínua Não basta autenticar uma vez no início do dia. Cada solicitação de acesso é avaliada em tempo real considerando: quem está pedindo, de onde, em que dispositivo, qual o comportamento histórico, qual o nível de risco da ação.

2. Princípio do Menor Privilégio Acesso mínimo necessário, pelo tempo mínimo necessário. Um analista financeiro não precisa acessar o código-fonte. Um desenvolvedor não precisa ver dados de pacientes. Parece óbvio, mas 60% das empresas ainda operam com permissões excessivas (Gartner).

3. Microssegmentação Divida sua rede em zonas pequenas e isoladas. Se um atacante comprometer um segmento, ele não pode se mover lateralmente livremente. É como ter portas corta-fogo em cada andar do prédio, não apenas na entrada.

4. Assume Breach Projete seus sistemas assumindo que já há um invasor dentro. Monitore comportamentos anômalos, criptografe dados em trânsito e em repouso, tenha logs imutáveis. Quando (não se) houver um incidente, você precisa detectar e responder rapidamente.

Caso Real: Transformação em Healthcare

Recentemente, através da IONIC Health, conduzimos a implementação de Zero Trust em uma rede de clínicas com 15 unidades e 800 colaboradores. O cenário inicial era típico: VPN corporativa, Active Directory legado, acesso amplo para "facilitar o trabalho".

O ponto de virada foi um teste de penetração que revelou: um estagiário de TI tinha acesso de leitura a prontuários de todos os pacientes. Não por malícia, mas por configuração padrão que ninguém revisou em 5 anos.

A transformação levou 8 meses:

  • Mês 1-2: Mapeamento de identidades, aplicações e fluxos de dados
  • Mês 3-4: Implementação de MFA adaptativo e gestão de identidade (Okta)
  • Mês 5-6: Microssegmentação da rede e controle de acesso baseado em contexto
  • Mês 7-8: Monitoramento comportamental com SIEM e resposta automatizada

Resultado: Redução de 89% em alertas de segurança (menos falsos positivos), tempo de resposta a incidentes de 48h para 4h, e conformidade total com LGPD e HIPAA. O investimento de R$ 2.3 milhões se pagou em menos de 18 meses considerando apenas a redução de risco de multas regulatórias.

Roadmap Estratégico para Implementação

Para Indivíduos e Pequenas Empresas:

  1. MFA em tudo: Google Authenticator, Authy ou chaves físicas (YubiKey)
  2. Gerenciador de senhas corporativo: 1Password Business, Bitwarden
  3. Endpoint Detection and Response (EDR): CrowdStrike, SentinelOne
  4. Backup 3-2-1: 3 cópias, 2 mídias diferentes, 1 offsite

Para Organizações Médias e Grandes:

  1. Identity and Access Management (IAM): Okta, Azure AD, Ping Identity
  2. Secure Access Service Edge (SASE): Zscaler, Palo Alto Prisma
  3. Cloud Security Posture Management (CSPM): Wiz, Orca Security
  4. Zero Trust Network Access (ZTNA): Cloudflare Access, Perimeter 81

O framework NIST 800-207 é um excelente ponto de partida para estruturar sua jornada. Não tente fazer tudo de uma vez. Comece pelos ativos mais críticos (crown jewels) e expanda gradualmente.

O Futuro é Adaptativo

A próxima fronteira do Zero Trust é a integração com IA generativa para detecção de anomalias em tempo real. Modelos de machine learning já conseguem identificar padrões de comportamento suspeitos com precisão superior a 95%, reduzindo drasticamente o tempo de detecção (dwell time) de meses para horas.

A regulamentação também está evoluindo. A NIS2 na Europa e propostas similares no Brasil vão tornar Zero Trust não apenas uma boa prática, mas uma exigência legal para setores críticos. Empresas que se anteciparem terão vantagem competitiva.

Como alguém que testemunhou a evolução de mainframes a cloud nativa, posso afirmar: Zero Trust não é hype. É a única abordagem sustentável em um mundo onde o perímetro é o usuário.


Vamos conversar? Se você está planejando uma transformação de segurança ou quer discutir como aplicar Zero Trust no seu contexto, me encontre no LinkedIn. Compartilho regularmente insights e cases reais.

Ricardo Esper
CISO | 34 anos em Cibersegurança | Membro OWASP & HackerOne